Título Original: Stone Blind
Escritora:
Natalie Haynes
Editora: HarperCollins Exports
Ano: 2022

Muitos livros que retratam contos mitológicos através da visão feminina têm surgido nos últimos anos e, para a nossa felicidade como leitores, um melhor do que o outro.

Ao invés de somente recriarem a história dos fantásticos deuses e criaturas da antiga Grécia, Roma e Egito, essas ficções literárias narram os mesmos eventos, porém visto da ótica oprimida que as personagens do sexo feminino sofrem desde aquela época. Não que isso signifique que não haja algumas licenças poéticas nessas histórias.



Stone Blind, escrito pela autora Natalie Haynes, é um ótimo exemplo de livro com uma personagem mitológica que já há algum tempo historiadores têm estudado sobre uma ótica vitimista, ao invés de cruel vilã. Seu nome, Medusa, seu olhar, petrificante.

Uma Górgona amaldiçoada por ter sido estuprada por Poseidon

Uma passagem do livro, já no início, é forte e evoca o que nossa sociedade contemporânea ainda vive:

“E o monstro? Quem é ela? Ela é o que acontece quando alguém não pode ser salvo. Esse monstro em particular foi agredida, abusada e vilanificada. E, mesmo assim, como a história é sempre contada, é ela quem você deve temer. Ela é o monstro.”

Com essas fortes palavras, ainda nos capítulos iniciais, lemos a tão conhecida mitologia da Górgona chamada Medusa e de seu assassino (e não herói!), Perseus.

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Seria Medusa um monstro a ser temido, ou mais uma mulher vítima da opressão de uma sociedade machista desde tempos imemoriais? [art by Candra – Deviantart]
A narrativa, para quem desconhece a lenda, fala de uma Górgona, filha de deuses marítimos, que foi estuprada por Poseidon no templo de Athena, e esta que, como vingança, amaldiçoou a vítima (Medusa).

Agora Medusa têm, no lugar de seus belos cabelos, cobras, como suas irmãs Esteno e Euríale, porém com um diferencial: qualquer ser vivo da qual seu olhar recai, ela mata esse ser petrificando-o.

Essa situação com Poseidon e Athena pode ser mitológica, mas suas maquinações são tão contemporâneas quanto reais: um homem sai impune e inocentado por poder social (nesse caso no panteão dos deuses) e deixa a mulher contra mulher (Athena vs Medusa) por um crime cometido por um homem.

Pode ser uma trágica história mitológica, mas sua narrativa é tão real quanto os crimes que ocorrem nas sociedades modernas em relação a diferença de gênero.

Natalye Haynes Stone Blind
Natalie Haynes, autora de Stone Blind, a história da Medusa.

Stone Blind traz novos olhares a velhos personagens

O interessante da mitologia ser vista a partir da ótica de diversas personagens femininas (e a própria história ter sido escrita por uma mulher) traz uma visão sobre situações que antes víamos somente de uma ótica vivenciada por homens da mitologia grega.

Isso traz uma construção incrível de personagens. Eu me apaixonei no exato momento em que comecei a ler as partes da Esteno e Euríale que, menos conhecidas que a Medusa, também são Górgonas consideradas monstros. Sua força, isolamento e sensação de dever em cuidar da Medusa em um mundo completamente injusto é de quebrar o coração. Euríale é trabalhadora e cuida do alimento, quanto que Esteno é uma personagem tão forte que é capaz de mudar o alcance da praia destruindo montanhas acima delas.

Além disso, também vemos o sofrimento das personagens que se tornam vilãs, como a própria deusa Athena, que sofre em seu dia a dia em um panteão rodeado por deuses masculinos, como quando sofre o estupro perpetrado por Hephaestus.

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Representação artística das irmãs górgonas, Medusa, Esteno e Euríale, pelo artista Kevinsidharta. [art by Kevinsidharta – Deviantart]

O livro possui alguns problemas, na minha opinião

Por muito pouco Stone Blind não se torna o meu livro favorito. Infelizmente, Haynes comete algumas gafes desnecessárias para direcionar o leitor, na minha opinião.

Perseus é um assassino, não se engane com o conto do “herói”, mas ele se torna um por ser uma vítima das circunstâncias. E seu motivo é para livrar a mãe de um casamento forçado com um rei cruel, da qual a autora tenta amenizar para fazer com que o leitor não crie qualquer afinidade com Perseus. Só que ela faz isso justificando a opressão de outra mulher, nesse caso Dânae, mãe de Perseus.

Além disso, em dois momentos somos parados em nossa leitura com capítulos de poucas páginas que ficam demonizando Perseus em uma clara forma de direcionar o leitor a não sentir compaixão por ele, sendo que a autora é tão boa em sua arte que ela já havia conseguido fazer isso com sua narrativa envolvente e bem construída sem ter que “forçar” o leitor a isso.

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Medusa e Perseus, duas vítimas do jogo dos deuses, porém um deles se tornou assassino.

Eu entendo a parte como vítima de Perseus e nem por isso eu estava “torcendo” por ele. Queria até que ele morresse de tão apegado que fiquei com o conto da Medusa e suas irmãs e com a injustiça sofrida por elas que, convenhamos, muitas mulheres sofrem até mesmo nos tempos atuais.

Se não fossem esses pontos, o livro teria tirado Copenhagem, escrito por Michael Frayn, do pedestal como meu livro favorito.

Natalie Haynes traz um livro recheado de personagens

Gostaria que Medusa e suar irmãs tivessem tido mais espaço no livro. Porém, a narrativa traz diversos deuses, criaturas e humanos da mitologia Grega na obra. Todos construindo uma narrativa envolvente, gostosa de ler, fluida e recheada de criticas sociais de forma sucinta nas entrelinhas.

Mas fique tranquilo, leitor: mesmo com essa quantidade de personagens, não é difícil ler e lembrar dos nomes, graças a maestria da escrita de Natalie, que sabe muito bem como intercalar os capítulos.



É interessante notar como a autora consegue manter o esotérico da mitologia grega sem quebrar o pensamento da época, porém incluindo as criticas sociais com um feminismo oculto, porém presente na narrativa.

Stone Blind foi lançado em 2022 e ainda não conta com tradução para o português brasileiro, mas com o sucesso do livro e a fama que outras obras que recontam clássicos da mitologia sob uma ótica feminina estão fazendo, deixam essa possibilidade bem próxima do horizonte. Vamos torcer para que não demore para que mais brasileiros tenham acesso a essa obra prima de Natalie Haynes.

Nunca mais olharei Medusa, Esteno e Euríale com os mesmos olhos depois de Stone Blind

Seja a resposta que Medusa dá a Poseidon para proteger duas mulheres humanas, ou o carinho demonstrado por Esteno e Euríale à sua irmã, Stone Blind é uma emotiva história que traz a mitologia grega sob nova ótica.

Eu tenho enfrentado a Medusa em diversos jogos eletrônicos, como Castlevania e Assassin’s Creed, e torcendo contra ela em filmes que, como sempre, a retratam como vilã. Mas a verdade é que, assim como os olhos de Medusa foram alterados após a maldição de Athena, eu também tive minha visão mudada quanto a esta grande e vitimizada personagem que permeia e petrifica o consciente coletivo da humanidade por milênios.

medusa cabeça chefe castlevania
A cabeça da Medusa é um dos chefes do jogo eletrônico Castlevania – O Lamento dos Inocentes.
Por

Escritor, crítico e redator aficionado por livros e jogos eletrônicos. Conhecido como Veritas Volpe no ambiente artístico e literário.

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