O SESC tem promovido uma série de oficinas envolvendo escritores já ativos no Brasil, com o intuito de inspirar e ajudar novos escritores que pretendem criar obras de ficção. Em Cuiabá, a oficina SESC – Escrita para Ficção foi ministrada pela vencedora do prêmio SESC de literatura em 2014 Débora Ferraz, e ocorreu entre os dias 5/12 à 08/12 (Terça à Sexta) no SESC Arsenal.

A iniciativa do SESC Escrita para Ficção é de levar escritores de estados diferentes para outras regiões do Brasil, na qual os mesmos ensinam técnicas e compartilham suas experiências profissionais para motivar e ensinar pessoas das regiões atendidas a se tornarem escritores de contos e romances de Ficção.

Na entrevista exclusiva para o Café com Leitura, Débora Ferraz explica:

Café com Leitura: Como surgiu a ideia desta oficina para Escritores de Ficção?

Débora Ferraz: O SESC possui este projeto, “A arte da Palavra” na qual a ideia é levar escritores de uma região para outra região completamente diferente. A minha região é o Rio Grande do Sul, pois eu moro lá (Porto Alegre), no entanto eu nasci em Pernambuco. A ideia é interessante, pois geralmente acaba que a região conhece os escritores próprios de lá, e não de outros estados. A ideia é misturar.

Café com Leitura: Como o SESC se aproximou de você para participar da “Arte da Palavra”?

Débora Ferraz: Eu recebi um convite do SESC, que já sabia que eu havia realizado oficinas voltados para escrita, e também por já possuir doutorado em escrita criativa. Assim me chamaram para fazer uma oficina.

SESC Escrita para Ficção - Déobora com seu livro Enquanto Deus Não Está Olhando
Débora com seu romance que venceu o prêmio de literatura do ano de 2014 do SESC

Café com Leitura: Você já havia realizado outras oficinas?

Débora Ferraz: Sim, já participei como aluna e já realizei outras oficinas de escrita criativa. Inclusive participei de uma das oficinas mais famosas do Brasil de escrita criativa, a oficina de Criação Literária da PUC-RS do Luiz Antônio de Assis Brasil, a mais antigas em continuidade ininterrupta do país. Eu também realizei workshops com Raimundo Carrero, famosos escritor pernambucano e também dou aula de escrita criativa.

Café com Leitura: Você chegou a notar muita diferença desta oficina (em Mato Grosso) em relação a outros estados?

Débora Ferraz: Sim, dá para perceber uma diferença muito grande entre os estados, mas aqui achei um dos melhores. Porém, no meu ponto de vista pode ser complicado, por que as cidades que vieram para mim foram de interiores. Aqui foi a única capital que eu peguei. No entanto, nas cidades de interior eram poucos aspirantes a escritor. Muitos exerciam outras atividades que também utilizava a escrita, ou então não possuíam muito conhecimento literário. Mas é interessante que, por não pensarem em ser escritores, os participantes conseguiam criar situações completamente novas, quando se deparavam com exercícios para criação de algum conflito entre personagens, exatamente por não aspirarem a serem escritores.

Café com Leitura: E você chegou a notar se alguma dessas pessoas cogitaram em talvez se tornarem escritores devido a palestra?

Débora Ferraz: Sim, essa oficina teve bem essa peculiaridade. E nos primeiros dias eu havia pensado que até seria um pouco complicado, pois era um público que não possuía muito contato com a literatura, nem expressão artística… foi inclusive em um SESC que não tinha uma biblioteca, então eles não tinham muito acesso a livros e a leitura.

Débora Ferraz e sua característica jaqueta
Débora Ferraz e sua característica jaqueta ministrou o curso para 25 alunos em Cuiabá, no SESC Arsenal.

Café com Leitura: Quais são as principais dificuldades em ser um escritor aqui no Brasil na sua opinião?

Débora Ferraz: Olha, eu acredito que ser escritor no Brasil não é tão diferente de tentar se tornar escritor em qualquer outro lugar, mas é opinião pessoal. Por que as dificuldades que nós temos em publicar, e tudo mais também aparecem em outros lugares. O mercado dos livros não tem tanta a figura do agente e aqui no Brasil também não tem revistas que publicam contos independentes, como nos EUA por exemplo.

O Grande problema do Brasil é que tem pouco leitor e muito escritor. Geralmente quando a pessoa é leitora, ela também quer ser escritora e as vezes tem gente que não gosta de ler, mas quer se escritor também.” – Débora Ferraz

Levantamos a questão da pobre divulgação que o SESC Escrita para Ficção possui e quando indagada sobre a divulgação do evento, Débora Ferraz informa que:

“Infelizmente, este não é só um problema do Mato Grosso, mas sim de todos os SESCs do país. Eu me recordo quando eu era aspirante a escritora, que eu queria participar destas oficinas, por que é bom estar em contato com pessoas que também querem se tornar escritores. Eu lembro que uma vez eu perdi uma oportunidade de ver um dos meus escritores favoritos, Daniel Galera, por esses motivos de pobre divulgação, em João Pessoa em uma oficina de escrita do SESC. E lembro que muitas das pessoas que também eram aspirantes a escritores que eu conhecia não ficaram sabendo do evento. Fiquei sabendo somente depois. No final ele (Daniel Galera) acabou sentando com mais ou menos três pessoas, na qual não eram interessadas em se tornarem escritores, estavam ali realizando outras atividades do SESC e aproveitaram a oportunidade.”

Débora Ferraz ganhou, em 2014, o prêmio SESC de literatura com seu romance “Enquanto Deus Não Está Olhando”.

Sesc Arsenal
O evento ocorreu em uma das salas no SESC Arsenal na capital mato-grossense

Também perguntamos para alguns alunos o que eles acharam do ciclo de palestras:

Vinicius, estudante de direito, informou que o objetivo em participar deste curso foi para melhorar a escrita e sua forma de expressão, porém dentro da área em que atua. A participação, segundo Vinicius, foi com o intuito de se desenvolver juridicamente e ter ferramentas para ajudar na elaboração de textos documentais e processuais, mas não descartou a possibilidade de talvez um dia utilizar o que aprendeu para se tornar um escritor.

Laérsio Miranda, Fotógrafo e profissional de vídeo, possui experiência com documentários, porém sempre quis realizar obras de ficção. Realizou o curso com este propósito, já que o mesmo também não possui pretensão de escrever Romances, mas sim contos e ampliar os mesmos para o trabalho de ficção no cinema. Miranda informa que gostou muito da oficina, mas recomendou que seria interessante há possibilidade de um tempo intermediário entre as palestras para elaborar uma produção e poder chegar com dúvidas mais específicas para ampliar o conhecimento.

Como a própria Débora informou, muitos participantes não almejam escrever romances, mas não quer dizer que não possam utilizar o conhecimento adquirido no ciclo de palestras do Sesc – Escrita para Ficção para utilizarem em suas áreas de atuação.

Livro recomendado para aspirantes a escritores por Débora Ferraz:

  • O Escritor de Fim de Semana – Robert J. Ray
Por

Escritor, crítico e redator aficionado por livros e jogos eletrônicos. Conhecido como Veritas Volpe no ambiente artístico e literário.

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