Escritor: Hideaki Sena
Distribuidora: Vertical Inc (Ocidente)
Título Original:パラサイトイヴ (Parasaito Ivu)
Ano:  1995 (Japão) – 2007 (Ocidente)

WOW! Eu sinceramente não sei por onde começar a analisar este livro. Se você é fã do jogo eletrônico da Square Soft é fácil de continuar lendo este artigo, mas também recomendo muito para os leitores que adoram obras de ficção de terror e suspense inteligentes.

Logicamente eu já havia terminado os dois primeiros jogos da saga Parasite Eve (lançados em 1998 e 1999) que são uma sequência direta do livro, e quase terminado o terceiro jogo (que está longe de ser bom como os dois primeiros!) que é um Spinoff. Também sabia da adaptação japonesa do livro nas telinhas do cinema, neste caso baseado no conto do próprio livro. Porém, após pesquisar mais sobre a obra, descobri que o sucesso de Parasite Eve de fato começou pelo livro de Sena, e não pelos jogos eletrônicos da Square Soft, que na época já era uma empresa reconhecida mundialmente pelos seus RPGs (como Final Fantasy e Dragon Quest).

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Hideaki Sena, autor do livro Parasite Eve, ainda cursava farmacologia quando lançou o livro que originaria o movimento de terror “inteligente” japonês.

Hideaki Sena (秀明瀬名), o autor do livro Parasite Eve, foi um dos responsáveis por fazer ressurgir o gênero de terror no Japão (os famosos J-Horrors). Os contos de horror na terra do sol nascente, usualmente centrados no terror folclórico, se deparou com um estouro com o lançamento de Parasite Eve em 1995, causando, junto de outro livro chamado Spiral (escrito por Koji Susuki), uma quantidade significativa de novas obras (como livros, filmes e jogos eletrônicos) do gênero de horror no país nipônico.

E não é para menos, pois Hideaki venceu o primeiro prêmio para obras de terror em seu país com seu livro Parasite Eve. O início da época do terror “inteligente” no Japão se iniciava, e seu progenitor era Sena.

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Antes do livro Parasite Eve, o horror no Japão era voltado mais para o ambiente folclórico do que o científico.

O livro Parasite Eve não tem igual!

Parasite Eve chegou primeiro no ocidente através dos jogos eletrônicos no Playstation 1 em 1998. O livro só seria traduzido em 2007 nos Estados Unidos, levando nada menos que 12 anos, e provavelmente só foi traduzido devido ao tamanho sucesso do jogo eletrônico. E caramba, valeu cada esforço, pois é difícil não apreciar este grande livro. Parasite Eve tenta pegar uma aproximação mais científica, na qual sempre se deparou com histórias mais fracas nos B-movies.

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Os dois primeiros jogos (que são sequências do livro Parasite Eve), protagonizado pela personagem Aya Brea, chegaram primeiro que livro no ocidente, e também foi um grande sucesso.

No entanto, o conto de Hideaki Sena é muito mais que uma mera desculpa para um conto de horror. Sendo Ph.D em farmacologia, Sena ainda era um formando na época em que lançou o livro, já mostrando, além de conhecimentos científicos, muita habilidade para escrever ficção. Engane-se aquele que pensa que Parasite Eve é somente horror; é um forte Drama envolvendo problemas familiares, os preconceitos tradicionais japoneses quanto à doação de órgãos e um terror totalmente científico, porém de linguagem acessível.

Estudamos muito pouco sobre Mitocôndria na escola, porém em suma estamos falando do parasita que reside em nossas células e elas (Mitocôndria) possuem DNA próprio (e único, não são multi celulares como nós). A mitocôndria é hereditária, de mãe para filho(a). O que aconteceria se uma dessas mitocôndrias evoluísse?

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Ao lado esquerdo, a capa da primeira edição do livro Parasite Eve lançado no Japão. As duas imagens do lado direito são as capas da versão ocidental, realizada pelo artista Chip Kidd.

Pois é, aí começa este maravilhoso conto, que narra de maneira inteligente, dramática e assustadora uma mitocôndria que está viva e evoluindo a anos, só aguardando para dominar a humanidade. Esta é a Mitocôndria Eve (Eva), teoria científica real sugerida por cientistas, onde acredita-se que todos os humanos seriam descendentes de uma mulher da África. E o pior, é um inimigo que reside dentro de nós, em nossas próprias células. Responsável por converter nosso consumo em energia, ela pode até mesmo fazer um ser humano entrar em combustão, que inclusive já foram registrado casos reais, porém sem provas que realmente possa ter sido responsável pela mitocôndria. O conto também sugere a teoria do Gene Egoísta, por Richard Dawkins, mas é melhor eu parar por aqui antes que eu entre no campo dos Spoilers!

Estudamos muito pouco sobre Mitocôndria na escola, no entanto Sena nos informa aos poucos, e de maneira leiga e compreensível, sobre este parasita que trabalha em conjunto em nossas células.

Parece complicado? Não se preocupe, não é (tirando o final!). Diferente dos horrores trash, Parasite Eve conta de uma maneira muito sutil, através de diversos personagens e eventos, como funcionam nossas células, transplantes de órgãos e de mais ocorrências existentes no livro. E Sena tem uma habilidade de simplificar muito com a escrita, facilitando assim a compreensão de assuntos mais complexos (não é a toa que hoje em dia ele da aulas!). O livro conta com apêndices no final trazendo algumas informações mais técnicas para quem quiser aprender ou relembrar algumas palavras mais técnicas no campo da ciência.

O conto centra em alguns personagens, entre eles o cientista Toshiaki, que perde sua esposa Kiyomi em um acidente de carro (ela estava infectada pelo parasita Eve), uma criança (Mariko) que passa por um transplante de rim e não se entende com seu pai (Anzai), e até um cirurgião que já falhou com sua paciente uma vez. Somos apresentados a uma meia dúzia de personagens, na qual são muito interessantes e humanos, fazendo assim o leitor se apegar rapidamente à eles e ao conto, enquanto suas vidas se cruzam na história.

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O livro de Hideaki Sena (Parasite Eve) fez tanto sucesso no Japão que resultou em três jogos eletrônicos, um filme, uma série de mangás, três trilhas sonoras, Artbooks e guias de estratégia. Sem contar em alguns Action figures!

O livro de Hideaki Sena é dividido em dois segmentos

A partir da segunda metade do livro, no entanto, o conto começa a tomar um aspecto mais obscuro e sinistro, com um suspense de tirar o fôlego, deixando um pouco de lado o drama da primeira metade. Cheguei a ficar ofegante lendo um dos capítulos! Mais para o final do livro, existem cenas realmente perturbadoras, além do que estamos habituados a imaginar. Isso vai de uma criatura tentando se formar fisicamente à imagem de um humano até um nascimento de um novo ser. Com a maestria da escrita de Sena e tradução de Tyran Grillo, é literalmente de dar calafrios.

Porém, mais do que isso, é um livro muito inteligente e informativo. Existe muita informação científica aqui e Sena sabe como articular bem as palavras para fazer qualquer leigo em biologia e anatomia entender o que se passa (eu incluído!). É realmente incrível. É tão fácil de compreender através das palavras do autor que toda vez que surgia uma informação nova, me sentia compilado a pesquisar mais sobre o assunto, de tanto interesse que a informação me causava.

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No filme, o personagem Toshiaki é interpretado por Hiroshi Mikami e Kiyomi por Hazuki Riona

Os jogos podem ter surgido primeiro e até mesmo terem feito mais sucesso no ocidente, mas no Japão o livro Parasite Eve é visto até hoje como uma obra de peso, sendo visto como responsável (o que de fato é verdade) no surgimento de jogos eletrônico, filmes e outros livros do gênero terror inteligente no país nipônico. Para os mais aficionados pelos mangás japoneses, Parasite Eve também virou um (mas foram baseados na sequência do jogo eletrônico de 1998)!

Os dois primeiros jogos são uma continuação direta deste livro, onde o cientista Toshiaki é mencionado pelo personagem Maeda no primeiro jogo, quanto que o terceiro jogo da série é um Spin-off. Mesmo com o sucesso dos jogos eletrônicos da Square, foi difícil realizar continuações devido aos direitos autorais que o autor do livro Hideaki Sena ainda detém (afinal de contas, a obra é dele).

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Atualmente Sena leciona microbiologia e ficção literária. “Sena” é seu nome artístico, seu verdadeiro nome é Hideaki Susuki.

Já zerou os jogos e quer mais de Parasite Eve? É só ler o livro que recomendo, aliás, não só para os fãs da série nos Vídeo Games, mas para qualquer um que queira um conto similar de horror estilo Jurassic Park (escrito por Michael Crichton): Dramático, inteligente, informativo e com um suspense de tirar o fôlego!

SPOILER: ENTENDA O FINAL DO LIVRO PARASITE EVE

Apesar de bem explicado através do domínio da escrita de Sena, assim facilitando a compreensão de termos técnicos, o final ainda pode ser um pouco confuso fazendo o leitor se perguntar o que afinal aconteceu.

O que de fato ocorreu para o Ultimate Being, o filho de EVE, morrer?

A mitocôndria é passada de mãe para filho(a), a mitocôndria não carrega traços do pai. Quando a Mitocôndria Eve rouba o esperma do cientista Toshiaki para criar o último ser, ela acaba carregando a mitocôndria do cientista junto. Até aí é normal, como ocorre na vida real. Esse fato não era para ser um problema, se Eve também fosse humana, já que em dois seres da mesma espécie, a mitocôndria do homem é morta durante a divisão celular após a fecundação do óvulo.

No entanto, como o próprio autor informa (através da personagem Asakusa), em experimentos cruzando espécies diferentes, a mitocôndria do ser masculino sobrevive quando o filho é homem. Como Eve (e o rim que alterou os órgãos de reprodução da personagem Mariko) é uma espécie não humana, mas sim uma mitocôndria que “imitou” a forma humana, ela é de uma espécie diferente dos espermas de Toshiaki, que é de fato um humano. Isso faz com que ocorra a tese do “gene egoísta”, teoria real de Richard Dawkins, na qual ambas as mitocôndrias, masculina e feminina, briguem entre si por dominância.

Por isso no final a criatura fica trocando de sexo toda hora, de maneira confusa e com o corpo se deteriorando. São as duas mitocôndrias lutando por dominância. Em determinado ponto o corpo da criatura deixa de aguentar as rápidas mudanças do seu próprio corpo, assim se desfazendo e morrendo por completo.

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Por

Escritor, crítico e redator aficionado por livros e jogos eletrônicos. Conhecido como Veritas Volpe no ambiente artístico e literário.

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